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segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A DESEJADA DAS GENTES (Machado de Assis)

A DESEJADA DAS GENTES
(Machado de Assis)

— Ah! conselheiro, aí começa a falar em verso.
— Todos os homens devem ter uma lira no coração, — ou não sejam homens. Que
a lira ressoe a toda a hora, nem por qualquer motivo, não o digo eu, mas de longe
em longe, e por algumas reminiscências particulares... Sabe por que é que lhe
pareço poeta, apesar das Ordenações do Reino e dos cabelos grisalhos? é porque
vamos por esta Glória adiante, costeando aqui a Secretaria de Estrangeiros... Lá
está o outeiro célebre... Adiante há uma casa...
— Vamos andando.
— Vamos... Divina Quintília! Todas essas caras que aí passam são outras, mas
falam-me daquele tempo, como se fossem as mesmas de outrora; é a lira que
ressoa, e a imaginação faz o resto. Divina Quintília!
— Chamava-se Quintília? Conheci de vista, quando andava na Escola de Medicina,
uma linda moça com esse nome. Diziam que era a mais bela da cidade.
— Há de ser a mesma, porque tinha essa fama. Magra e alta?
— Isso. Que fim levou?
— Morreu em 1859. Vinte de abril. Nunca me há de esquecer esse dia. Vou
contar-lhe um caso interessante para mim, e creio que também para o senhor.
Olhe, a casa era aquela... Morava com um tio, chefe de esquadra reformado; tinha
outra casa no Cosme Velho. Quando conheci Quintília... Que idade pensa que
teria, quando a conheci?
— Se foi em 1855...
— Em 1855.
— Devia ter vinte anos.
— Tinha trinta.
— Trinta?
— Trinta anos. Não os parecia, nem era nenhuma inimiga que lhe dava essa
idade. Ela própria a confessava e até com afetação. Ao contrário, uma de suas
amigas afirmava que Quintília não passava dos vinte e sete; mas como ambas
tinham nascido no mesmo dia, dizia isso para diminuir-se a si própria.
— Mau, nada de ironias; olhe que a ironia não faz boa cama com a saudade.
— Que é a saudade senão uma ironia do tempo e da fortuna? Veja lá; começo a
ficar sentencioso. Trinta anos; mas em verdade, não os parecia. Lembra-se bem
que era magra e alta; tinha os olhos como eu então dizia, que pareciam cortados
da capa da última noite, mas apesar de noturnos, sem mistérios nem abismos. A
voz era brandíssima, um tanto apaulistada, a boca larga, e os dentes, quando ela
simplesmente falava, davam-lhe à boca um ar de riso. Ria também, e foram os
risos dela, de parceria com os olhos, que me doeram muito durante certo tempo.
— Mas se os olhos não tinham mistérios...
— Tanto não os tinham que cheguei ao ponto de supor que eram as portas
abertas do castelo, e o riso o clarim que chamava os cavaleiros. Já a conhecíamos,
eu e o meu companheiro de escritório, o João Nóbrega, ambos principiantes na
advocacia, e íntimos como ninguém mais; mas nunca nos lembrou namorá-la. Ela
andava então no galarim; era bela, rica, elegante, e da primeira roda. Mas um dia,
no antigo Teatro Provisório entre dois atos dos Puritanos, estando eu num
corredor, ouvi um grupo de moços que falavam dela, como de uma fortaleza
inexpugnável. Dois confessaram haver tentado alguma coisa, mas sem fruto; e
todos pasmavam do celibato da moça que lhes parecia sem explicação. E
chalaceavam: um dizia que era promessa até ver se engordava primeiro; outro
que estava esperando a segunda mocidade do tio para casar com ele; outro que
provavelmente encomendara algum anjo ao porteiro do céu; trivialidades que me
aborreceram muito, e da parte dos que confessavam tê-la cortejado ou amado,
achei que era uma grosseria sem nome. No que eles estavam todos de acordo é
que ela era extraordinariamente bela; aí foram entusiastas e sinceros.
— Oh! ainda me lembro!... era muito bonita.
— No dia seguinte, ao chegar ao escritório, entre duas causas que não vinham,
contei ao Nóbrega a conversação da véspera. Nóbrega riu-se do caso, refletiu, e
depois de dar alguns passos, parou diante de mim, olhando, calado. — Aposto que
a namoras? perguntei-lhe. — Não, disse ele; nem tu? Pois lembrou-me uma coisa:
vamos tentar o assalto à fortaleza? Que perdemos com isso? Nada; ou ela nos põe
na rua, e já podemos esperá-lo, ou aceita um de nós, e tanto melhor para o outro
que verá o seu amigo feliz. — Estás falando sério? — Muito sério. — Nóbrega
acrescentou que não era só a beleza dela que a fazia atraente. Note que ele tinha
a presunção de ser espírito prático, mas era principalmente um sonhador que vivia
lendo e construindo aparelhos sociais e políticos. Segundo ele, os tais rapazes do
teatro evitavam falar dos bens da moça, que eram um dos feitiços dela, e uma
das causas prováveis da desconsolação de uns e dos sarcasmos de todos. E diziame:
— Escuta, nem divinizar o dinheiro, nem também bani-lo; não vamos crer
que ele dá tudo, mas reconheçamos que dá alguma coisa e até muita coisa, —
este relógio, por exemplo. Combatamos pela nossa Quintília, minha ou tua, mas
provavelmente minha, porque sou mais bonito que tu.
— Conselheiro, a confissão é grave; foi assim brincando...?
— Foi assim brincando, cheirando ainda aos bancos da academia, que nos
metemos em negócio de tanta ponderação, que podia acabar em nada, mas deu
muito de si. Era um começo estouvado, quase um passatempo de crianças, sem a
nota da sinceridade; mas o homem põe e a espécie dispõe. Conhecíamo-la, posto
não tivéssemos encontros freqüentes; uma vez que nos dispusemos a uma ação
comum, entrou um elemento novo na nossa vida, e dentro de um mês estávamos
brigados.
— Brigados?
— Ou quase. Não tínhamos contado com ela, que nos enfeitiçou a ambos,
violentamente. Em algumas semanas já pouco falávamos de Quintília, e com
indiferença; tratávamos de enganar um ao outro e dissimular o que sentíamos. Foi
assim que as nossas relações se dissolveram, no fim de seis meses, sem ódio,
nem luta, nem demonstração externa, porque ainda nos falávamos, onde o acaso
nos reunia; mas já então tínhamos banca separada.
— Começo a ver uma pontinha do drama...
— Tragédia, diga tragédia; porque daí a pouco tempo, ou por desengano verbal
que ela lhe desse, ou por desespero de vencer, Nóbrega deixou-me só em campo.
Arranjou uma nomeação de juiz municipal lá para os sertões da Bahia, onde
definhou e morreu antes de acabar o quatriênio. E juro-lhe que não foi o inculcado
espírito prático de Nóbrega que o separou de mim; ele, que tanto falara das
vantagens do dinheiro, morreu apaixonado como um simples Werther.
— Menos a pistola.
Também o veneno mata; e o amor de Quintília podia dizer-se alguma coisa
parecido com isso; foi o que o matou, e o que ainda hoje me dói... Mas, vejo pelo
seu dito que o estou aborrecendo...
— Pelo amor de Deus. Juro-lhe que não; foi uma graçola que me escapou. Vamos
adiante, conselheiro; ficou só em campo.
— Quintília não deixava ninguém estar só em campo, — não digo por ela, mas
pelos outros. Muitos vinham ali tomar um cálix de esperanças, e iam cear a outra
parte. Ela não favorecia a um mais que a outro; mas era lhana, graciosa e tinha
essa espécie de olhos derramados que não foram feitos para homens ciumentos.
Tive ciúmes amargos e, às vezes, terríveis. Todo argueiro me parecia um
cavaleiro, e todo cavaleiro um diabo. Afinal acostumei-me a ver que eram
passageiros de um dia. Outros me metiam mais medo, eram os que vinham
dentro da luva das amigas. Creio que houve duas ou três negociações dessas, mas
sem resultado. Quintília declarou que nada faria sem consultar o tio, e o tio
aconselhou a recusa, — coisa que ela sabia de antemão. O bom velho não gostava
nunca da visita de homens, com receio de que a sobrinha escolhesse algum e
casasse. Estava tão acostumado a trazê-la ao pé de si, como uma muleta da velha
alma aleijada, que temia perdê-la inteiramente.
— Não seria essa a causa da isenção sistemática da moça?
— Vai ver que não.
— O que noto é que o senhor era mais teimoso que os outros...
— ...Iludido, a princípio, porque no meio de tantas candidaturas malogradas,
Quintília preferia-me a todos os outros homens, e conversava comigo mais
largamente e mais intimamente, a tal ponto que chegou a correr que nos
casávamos.
— Mas conversavam de quê?
— De tudo o que ela não conversava com os outros; e era de fazer pasmar que
uma pessoa tão amiga de bailes e passeios, de valsar e rir, fosse comigo tão
severa e grave, tão diferente do que costumava ou parecia ser.
— A razão é clara: achava a sua conversação menos insossa que a dos outros
homens.
— Obrigado; era mais profunda a causa da diferença, e a diferença ia-se
acentuando com os tempos. Quando a vida cá embaixo a aborrecia muito, ia para
o Cosme Velho, e ali as nossas conversações eram mais freqüentes e compridas.
Não lhe posso dizer, nem o senhor compreenderia nada, o que foram as horas que
ali passei, incorporando na minha vida toda a vida que jorrava dela. Muitas vezes
quis dizer-lhe o que sentia, mas as palavras tinham medo e ficavam no coração.
Escrevi cartas sobre cartas; todas me pareciam frias, difusas, ou inchadas de
estilo. Demais, ela não dava ensejo a nada, tinha um ar de velha amiga. No
princípio de 1857 adoeceu meu pai em Itaboraí; corri a vê-lo, achei-o moribundo.
Este fato reteve-me fora da Corte uns quatro meses. Voltei pelos fins de maio.
Quintília recebeu-me triste da minha tristeza, e vi claramente que o meu luto
passara aos olhos dela...
— Mas que era isso senão amor?
— Assim o cri, e dispus a minha vida para desposá-la. Nisto, adoeceu o tio
gravemente. Quintília não ficava só, se ele morresse, porque, além dos muitos
parentes espalhados que tinha, morava com ela agora, na casa da Rua do Catete,
uma prima, D. Ana, viúva; mas, é certo que a afeição principal ia-se embora e
nessa transição da vida presente à vida ulterior podia eu alcançar o que desejava.
A moléstia do tio foi breve; ajudada da velhice, levou-o em duas semanas. Digolhe
aqui que a morte dele lembrou-me a de meu pai, e a dor que então senti foi
quase a mesma. Quintília viu-me padecer, compreendeu o duplo motivo, e,
segundo me disse depois, estimou a coincidência do golpe, uma vez que tínhamos
de o receber sem falta e tão breve. A palavra pareceu-me um convite
matrimonial; dois meses depois cuidei de pedi-la em casamento. D. Ana ficara
morando com ela e estavam no Cosme Velho. Fui ali, achei-as juntas no terraço,
que ficava perto da montanha. Eram quatro horas da tarde de um domingo. D.
Ana, que nos presumia namorados, deixou-nos o campo livre.
— Enfim!
— No terraço, lugar solitário, e posso dizer agreste, proferi a primeira palavra. O
meu plano era justamente precipitar tudo, com medo de que, cinco minutos de
conversa me tirassem as forças. Ainda assim, não sabe o que me custou; custaria
menos uma batalha, e juro-lhe que não nasci para guerras. Mas aquela mulher
magrinha e delicada impunha-se-me, como nenhuma outra, antes e depois...
— E então?
— Quintília adivinhara, pelo transtorno do meu rosto, o que lhe ia pedir, e deixoume
falar para preparar a resposta. A resposta foi interrogativa e negativa. Casar
para quê? Era melhor que ficássemos amigos como dantes. Respondi-lhe que a
amizade era, em mim, desde muito, a simples sentinela do amor; não podendo
mais contê-lo, deixou que ele saísse. Quintília sorriu da metáfora, o que me doeu,
e sem razão; ela, vendo o efeito, fez-se outra vez séria e tratou de persuadir-me
de que era melhor não casar. — Estou velha, disse ela; vou em trinta e três anos.
— Mas se eu a amo assim mesmo, repliquei, e disse-lhe uma porção de coisas,
que não poderia repetir agora. Quintília refletiu um instante; depois insistiu nas
relações de amizade; disse que, posto que mais moço que ela, tinha a gravidade
de um homem mais velho e inspirava-lhe confiança como nenhum outro.
Desesperançado, dei algumas passadas, depois sentei-me outra vez e narrei-lhe
tudo. Ao saber da minha briga com o amigo e companheiro da academia, e a
separação em que ficamos, sentiu-se, não sei se diga, magoada ou irritada.
Censurou-nos a ambos, não valia a pena que chegássemos a tal ponto. — A
senhora diz isso porque não sente a mesma coisa. — Mas então é um delírio? —
Creio que sim; o que lhe afianço é que ainda agora, se fosse necessário, separarme-
ia dele uma e cem vezes; e creio poder afirmar-lhe que ele faria a mesma
coisa. Aqui olhou ela espantada para mim, como se olha para uma pessoa cujas
faculdades parecem transtornadas; depois abanou a cabeça, e repetiu que fora
um erro; não valia a pena. — Fiquemos amigos, disse-me, estendendo a mão. — É
impossível; pede-me coisa superior às minhas forças, nunca poderei ver na
senhora uma simples amiga; não desejo impor-lhe nada; dir-lhe-ei até que nem
mais insisto, porque não aceitaria outra resposta agora. Trocamos ainda algumas
palavras, e retirei-me... Veja a minha mão.
— Treme-lhe ainda...
— E não lhe contei tudo. Não lhe digo aqui os aborrecimentos que tive, nem a dor
e o despeito que me ficaram. Estava arrependido, zangado, devia ter provocado
aquele desengano desde as primeiras semanas; mas a culpa foi da esperança, que
é uma planta daninha, que me comeu o lugar de outras plantas melhores. No fim
de cinco dias saí para Itaboraí, onde me chamaram alguns interesses do
inventário de meu pai. Quando voltei, três semanas depois, achei em casa uma
carta de Quintília.
— Oh!
— Abri-a alvoroçadamente: datava de quatro dias. Era longa; aludia aos últimos
sucessos, e dizia coisas meigas e graves. Quintília afirmava ter esperado por mim
todos os dias, não cuidando que eu levasse o egoísmo até não voltar lá mais, por
isso escrevia-me, pedindo que fizesse dos meus sentimentos pessoais e sem eco
uma página de história acabada; que ficasse só o amigo, e lá fosse ver a sua
amiga. E concluía com estas singulares palavras: "Quer uma garantia? Juro-lhe
que não casarei nunca”. Compreendi que um vínculo de simpatia moral nos ligava
um ao outro; com a diferença que o que era em mim paixão específica, era nela
uma simples eleição de caráter. Éramos dois sócios, que entravam no comércio da
vida com diferente capital: eu, tudo o que possuía; ela, quase um óbolo. Respondi
à carta dela nesse sentido; e declarei que era tal a minha obediência e o meu
amor, que cedia, mas de má vontade, porque, depois do que se passara entre
nós, ia sentir-me humilhado. Risquei a palavra ridículo, já escrita, para poder ir
vê-la sem este vexame; bastava o outro.
— Aposto que seguiu atrás da carta? É o que eu faria, porque essa moça, ou eu
me engano ou estava morta por casar com o senhor.
— Deixe a sua fisiologia usual; este caso é particularíssimo.
— Deixe-me adivinhar o resto; o juramento era um anzol místico; depois, o
senhor, que o recebera, podia desobrigá-la dele, uma vez que aproveitasse com a
absolvição. Mas, enfim, correr à casa dele.
— Não corri; fui dois dias depois. No intervalo, respondeu ela à minha carta com
um bilhete carinhoso, que rematava com esta idéia: "não fale de humilhação,
onde não houve público." Fui, voltei uma e mais vezes e restabeleceram-se as
nossas relações. Não se falou em nada; ao princípio, custou-me muito parecer o
que era dantes; depois, o demônio da esperança veio pousar outra vez no meu
coração; e, sem nada exprimir, cuidei que um dia, um dia tarde, ela viesse a casar
comigo. E foi essa esperança que me retificou aos meus próprios olhos, na
situação em que me achava. Os boatos de nosso casamento correram mundo.
Chegaram aos nossos ouvidos; eu negava formalmente e sério; ela dava de
ombros e ria. Foi essa fase da nossa vida a mais serena para mim, salvo um
incidente curto, um diplomata austríaco ou não sei que, rapagão, elegante, ruivo,
olhos grandes e atrativos, e fidalgo ainda por cima. Quintília mostrou-se-lhe tão
graciosa, que ele cuidou estar aceito, e tratou de ir adiante. Creio que algum gesto
meu, inconsciente, ou então um pouco da percepção fina que o céu lhe dera,
levou depressa o desengano à legação austríaca. Pouco depois ela adoeceu; e foi
então que a nossa intimidade cresceu de vulto. Ela, enquanto se tratava, resolveu
não sair, e isso mesmo lhe disseram os médicos. Lá passava eu muitas horas
diariamente. Ou elas tocavam, ou jogávamos os três, ou então lia-se alguma
coisa; a maior parte das vezes conversávamos somente. Foi então que a estudei
muito; escutando as suas leituras vi que os livros puramente amorosos achava-os
incompreensíveis, e, se as paixões aí eram violentas, largava-os com tédio. Não
falava assim por ignorante; tinha notícia vaga das paixões, e assistira a algumas
alheias.
— De que moléstia padecia?
— Da espinha. Os médicos diziam que a moléstia não era talvez recente, e ia
tocando o ponto melindroso. Chegamos assim a 1859. Desde março desse ano a
moléstia agravou-se muito; teve uma pequena parada, mas para os fins do mês
chegou ao estado desesperador. Nunca vi depois criatura mais enérgica diante da
iminente catástrofe; estava então de uma magreza transparente, quase fluida; ria,
ou antes, sorria apenas, e vendo que eu escondia as minhas lágrimas, apertavame
as mãos agradecida. Um dia, estando só com o médico, perguntou-lhe a
verdade; ele ia mentir; ela disse-lhe que era inútil, que estava perdida. — Perdida,
não, murmurou o médico. — Jura que não estou perdida? — Ele hesitou, ela
agradeceu-lho. Uma vez certa que morria, ordenou o que prometera a si mesma.
— Casou com o senhor, aposto?
— Não me relembre essa triste cerimônia; ou antes, deixe-me relembrá-la, porque
me traz algum alento do passado. Não aceitou recusas nem pedidos meus; casou
comigo à beira da morte. Foi no dia 18 de abril de 1859. Passei os últimos dois
dias, até 20 de abril ao pé da minha noiva moribunda, e abracei-a pela primeira
vez feita cadáver.
— Tudo isso é bem esquisito.
— Não sei o que dirá a sua fisiologia. A minha, que é de profano, crê que aquela
moça tinha ao casamento uma aversão puramente física. Casou meio defunta, às
portas do nada. Chame-lhe monstro, se quer, mas acrescente divino.



Texto-fonte:
Obra Completa, Machado de Assis, vol. II,
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
Publicado originalmente por Laemmert & C. Editores, Rio de Janeiro em 1896.

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